Nos últimos meses, uma das coisas que foram acontecendo nos fundos por aqui foi um processo de testes, entrevistas, e consultas para tentar entender melhor como meu cérebro (dis)funciona. E no que provavelmente foi “o dinheiro mais fácil da vida” do neuropsicólogo envolvido (segundo o querido Tavos), no chá de revelação de CID tive um diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo, Nível de suporte I. Deu Sonic, pessoal.
A depressão crônica com episódio atual pendendo para grave também foi corroborada. E o TDAH é inconclusivo, porque a depressão está influenciando tudo de uma forma que pode-se confundir uma coisa com a outra. Mas ainda assim, se em um estado mais controlado for descoberto que eu tenho ambos, TEA seria predominante.
No pós-mundo em que vivemos, ainda tem gente que recebe um diagnóstico desses de forma negativa. Eu não consigo entender o porquê — não há desvantagem em chegar um pouco mais próximo da verdade nesse aspecto. E isso vindo de mim significa algo. (Sim, fui eu mesmo que coloquei esse travessão aí)
Enfim, o desgraçamento mental contínuo é inexorável. No pior dos casos você pode direcionar melhor a terapia que você evita fazer. Não tem cura nem tratamento, só se gerencia. Tudo como antes.
O Passado
Mais uma vez a depressão com suas garras aparece, esse abismo gravitacional pra onde vai a minha mente. Os meus resultados são confiantes em um grau de depressão grave. Sem surpresas aqui. O que me deixou mais impressionado foi como esse grau, junto ao período de maré alta onde estou, interage com o TEA quando eu paro pra pensar.
E como já falei com algumas pessoas, eu tenho refletido em situações passadas aleatoriamente sob a luz desse novo contexto. E as coisas passam a fazer bem mais sentido do que quando simplesmente era culpa da minha angústia existencial. É difícil pra mim achar as palavras, porque eu conceptualizo minhas emoções como uma amálgama de nuvens pesadas e amorfas que interagem entre si formando texturas, mas tem toda uma dinâmica que emerge quando alguma coisa dentro de mim que pode ser justificada como parte do TEA é engatilhada enquanto potencializada por uma reação de depressão e/ou ansiedade. Uma coisa faz um degrau pra outra subir. É uma dupla dinâmica que não necessariamente torna a reação final mais fácil de explicar como um embolotado de emoções e pensamentos, mas me permite racionalizar internamente melhor.
O Presente?
Afinal, o que muda?
Eu não sei.
Quando eu comecei a pensar em tentar escrever novamente, eu achei que essa seria uma parte grande das coisas que eu ia escrever, mas acho que vai ser a menor. Vou até pular pra próxima.
Depois de pular, cá estou eu.
Durante a conversa na consulta de retorno, houve uma conversa sobre uma hipótese a respeito da minha capacidade maior no passado de mascarar e resistir em eventos de estresse, e a impressão de piora com o passar do tempo. Há um alinhamento muito claro de episódios mais agudos de depressão e pioras no que eu chamaria de carga máxima dessa bateria. Eu não necessariamente estou na pior maré alta, nem de longe. Mas é muito claro pra mim que fiquei muito mais limitado com a pressão constante do ambiente.
O Futuro…?
Dada uma situação em que eu volte a ter a depressão sob controle, surge uma janela de oportunidade de confirmar ou não um TDAH que subjaz. É complicado porque há uma tensão entre algumas das tendências mais comuns do TEA e as tendências mais comuns do TDAH. Inclusive algumas das características que são mais óbvias em mim atualmente são as mais paradoxais. Meu hiperfoco (e minha vontade de mantê-lo) é minado por múltiplas empreitadas que começam e jamais vão a lugar algum. Eu insisto em discursar em casa pela criação e manutenção de rotinas, para que eu possa reduzir minha carga cognitiva. Adivinha quem acaba sendo o mais caótico?
É essa parte que se torna difícil de entender porque no contexto desse cabo de guerra, tudo que se refere ao pato chamado TDAH anda como um pato, faz barulho de pato, parece um pato visto por um binóculo, mas pode ser um cisne negro bem disfarçado chamado depressão.
Descobrir o que é e o que não é culpa da depressão é que no futuro definiria se eu também tenho TDAH ou se apenas apresento sintomas efetivamente idênticos por causa dela e da sua interação com o TEA no meu cenário específico.
Boa sorte para todos nós.
